Nas últimas semanas, aumentou a procura por remédio usado contra vermes e parasitas para prevenir a covid-19, mesmo sem evidências de que isso funcione.

BBC News Brasil

O centro de eventos de Itajaí ficou lotado em 7 de julho. Ao longo do dia todo, moradores da cidade no interior de Santa Catarina fizeram fila para levar para casa doses de ivermectina.

Muitas pessoas têm ignorado a falta de evidências científicas sobre eficácia da ivermectina contra covid-19
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A Prefeitura comprou milhões de comprimidos do remédio, que é usado contra parasitas, para distribuir à população como prevenção para a covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus. Várias cidades do país já fizeram igual e outras disseram que pretendem fazer o mesmo.

A procura pelo medicamento também aumentou entre a população em geral. As buscas no Google dispararam. Em algumas farmácias, ele sumiu das prateleiras. E as fabricantes reforçaram a produção para dar conta da demanda.

Esse interesse parece ter sido resultado de uma série de fatores. Um estudo preliminar feito em laboratório teve bons resultados. O acesso a outros remédios alardeados como uma suposta cura para a covid-19 passou a ser controlado.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez menções à ivermectina, e muitas mensagens circularam no WhatsApp recomendando seu uso “para prevenir o contágio”.

Além disso, alguns médicos vêm recomendando, nos consultórios e na internet, que as pessoas a tomem para evitar ou tratar a covid-19.

Mas tudo isso parece ignorar um fato simples, mas importante: não há até agora comprovação científica de que a ivermectina – ou qualquer outro medicamento – previna ou trate a covid-19.

“A ivermectina é hoje o que a cloroquina era em março. As pessoas se convenceram de que ela pode ter algum efeito (contra a covid-19) e foram atrás de forma descontrolada”, diz a infectologista Raquel Stucchi, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

‘As pessoas estão desesperadas’

A ivermectina é comercializada desde o início dos anos 1980 para combater verminoses e parasitas, como piolhos, pulgas e carrapatos, em animais e seres humanos.

O medicamento atua no sistema nervoso central dos vermes e parasitas, provocando paralisia, e costuma ser usado em dose única.

Stucchi conta que há mais ou menos seis semanas começou a receber mensagens de conhecidos e pacientes em busca de informações sobre a medicação.

“Elas perguntam se devem tomar porque souberam que todo mundo está tomando. Nunca tinha ouvido falar em pessoas pedindo ivermectina em 40 anos de profissão”, diz Stucchi.

Controle do acesso a outros medicamentos, como a cloroquina, levou à busca por alternativas
Controle do acesso a outros medicamentos, como a cloroquina, levou à busca por alternativas

Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A infectologista afirma que a grande procura ocorre, em parte, porque é um remédio barato e que costuma causar poucos efeitos colaterais. Mas também atribui isso a colegas de profissão que têm indicado seu uso aos pacientes.

Stucchi cita o caso de uma amiga que foi à dermatologista para renovar receitas de cremes e saiu da consulta com uma receita para ivermectina.

A dermatologista disse que ficava a critério da paciente usar ou não, mas que tinha receitado porque se sentia na obrigação de avisar que acreditava que o medicamento previne a covid-19.

“Não sei de onde tiraram isso, porque essa informação não existe. Acho que é porque as pessoas estão desesperadas por uma cura e aconteceu um movimento muito bem planejado de divulgar a ivermectina como se ela fosse esse milagre”, diz Stucchi.

Estudo preliminar levou à procura por medicamento

Os dados de buscas no Google mostram que a procura pela ivermectina no Brasil deu um salto pela primeira vez no início de abril.

A esta altura, a cloroquina e o antiparasitário nitazoxanida, vendido no Brasil sob a marca Annita, eram os mais procurados nas farmácias contra a covid-19, mesmo sem eficácia comprovada.

A cloroquina era há tempos propagandeada por Bolsonaro como um remédio eficaz contra o coronavírus, e a nitazoxanida seria testada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações para o mesmo fim.

O aumento do interesse por eles fez com que ambos passassem a ser controlados, ou seja, comprados só com receita, o que restringiu o acesso.

Ao mesmo tempo, um estudo indicou que a ivermectina poderia matar o coronavírus. A pesquisa da Universidade Monash, na Austrália, concluiu em testes em laboratório que o antiparasitário pode neutralizar as propriedades infecciosas do vírus em 48 horas.

Mas trata-se apenas de uma análise preliminar, na qual a substância foi testada em uma cultura de células, e ainda há outros passos fundamentais até que seja possível verificar se esse efeito também ocorre em pessoas.

Um bom resultado nesta etapa está longe de garantir a eficácia contra o vírus. Além disso, a dose testada no estudo, se usada como medicamento, poderia gerar sérios danos à saúde.

A revista Science destacou ser fundamental “uma investigação mais aprofundada sobre possíveis benefícios (da ivermectina) em humanos” no combate à covid-19.

“Não há nenhuma evidência científica de que funciona, zero, nada”, reforça Alberto Chebabo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e diretor médico do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

“O que teve foi esse teste in vitro que mostrou que a ivermectina pode ter uma atividade antiviral, mas a dose necessária para isso também mata as células do organismo. Então, precisaríamos de uma hiperdose, que seria tóxica para nós, para ela funcionar.”

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