Nesta quarta-feira, 4 de maio, a Câmara dos Deputados pode e deve aprovar o piso salarial da categoria. Como exigir que se cuide de pessoas quando não há cuidado com os que cuidam?

Era março de 2020, milhares de nós, brasileiras e brasileiros, fomos à janela de nossas casas aplaudir o trabalho dos profissionais de Saúde. Havia um sentimento geral de gratidão pelo serviço prestado por eles naquele momento tão assustador: o começo da pandemia de covid-19 no Brasil.

Em jornadas exaustivas, lidando com um vírus ainda pouco conhecido, assustados com a crescente de casos e privados do convívio familiar, médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de Enfermagem passavam dias completamente focados em cuidar dos pacientes que chegavam aos hospitais e postos de saúde. Viviam no caos. No início, sem equipamentos de proteção individual adequados, testando os tratamentos, acompanhando as indicações da ciência, colocavam a própria vida em risco ao cuidar das outras tantas que atendiam diariamente.

Os meses se passaram, as vacinas – com muito custo – chegaram, e temos visto os índices de contaminação e mortes decorrentes do coronavírus diminuindo. Apesar da esperança por novos tempos, não devemos nos esquecer do pesadelo que vivemos. Das vidas perdidas e das consequências sociais e econômicas da pandemia, principalmente pela ação desastrada e anticientífica do governo federal. Não podemos, sobretudo, nos esquecer do esforço e dedicação dos profissionais da saúde e de sua enorme contribuição para garantir a atendimento e a imunização.

A Saúde não se faz sem gente, sem recursos humanos, sem a devida valorização. Neste momento, devemos ir além do momento emergencial e continuar com o reconhecimento das e dos profissionais de saúde, e atuar neste momento pela valorização do trabalho da Enfermagem (sejam enfermeiros, técnicos ou auxiliares) e sua importância para a vida da população brasileira.

Seguindo por essa linha, nesta quarta-feira, 4 de maio, a Câmara dos Deputados pode e deve aprovar o piso salarial da Enfermagem. A aprovação do Projeto de Lei 2.564/20 alcançará 1,3 milhão de trabalhadores e trabalhadoras da área em todo o Brasil, que estão na ativa nos serviços de saúde. É uma lei que coloca em pé de igualdade o serviço prestado nos diversos cantos do Brasil.

O impacto financeiro foi minuciosamente discutido por um Grupo de Trabalho na Câmara, coordenado pela deputada Carmen Zanotto (Cidadania-SC), e do qual tive a oportunidade de fazer parte, e chegou-se à conclusão, via relatório emitido pelo deputado Alexandre Padilha (PT-SP), de que o impacto esperado com a mudança será de R$ 16,3 bilhões, sendo R$ 5,8 bilhões para o setor público, distribuídos pelos entes, e R$ 10,5 bilhões para o setor privado, incluídos o setor com fins lucrativos e o setor filantrópico.

Para que o povo brasileiro tenha acesso à saúde de qualidade, é preciso que se invista nela. Esse investimento é, claro, em novos espaços, reformas, equipamentos e materiais. Mas, é fundamental o investimento nas pessoas, em quem está na linha de frente, em quem atende a população.

Caso contrário, teremos de lidar com o abandono da profissão, cada vez mais recorrente visto as condições de trabalho precárias, a carga de trabalho altíssima e a baixa remuneração. Como exigir que se cuide de pessoas quando não há cuidado com os que cuidam?

São muitos os trabalhos e melhorias que podemos fazer pela Saúde no Brasil. Antes da pandemia, já havia uma extensa lista de afazeres. Agora, nesta transição para o pós-pandemia, a quantidade de itens está ainda maior. A Covid-19 escancarou nossas necessidades, mas também mostrou a grandeza e a imprescindibilidade do nosso Sistema Único de Saúde publico e universal, e a qualidade de nossos profissionais.

A luta por essa pauta é contínua. Eu, enquanto médica cardiopediatra, vi de perto e acompanhei o trabalho dentro de postos e hospitais. Foi com uma emenda constitucional de minha autoria que, em 2001, profissionais da Saúde passaram a poder acumular até dois cargos públicos. Em muitas famílias, é o duplo-vínculo que garante o sustento da casa.

É urgente a valorização da Enfermagem. Aquelas palmas, ouvidas em 2020, ainda ecoam pelas ruas e pedem o devido reconhecimento dos profissionais que, todos os dias, deixam seus pais, seus filhos e seus irmãos, seus companheiros ou companheiras em casa para cuidar de milhões de brasileiros, sem distinção.

Pela Saúde, pelo SUS, pela pesquisa, pela qualificação, pelas famílias brasileiras, APROVA PL 2564 JÁ!

Fonte: Carta Capital

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